As escolhas das redes sociais para presidente da Hungria

As escolhas das redes sociais para presidente da Hungria

O recém-eleito partido Tisza pediu ao público que indicasse nomes, que iam do sensato ao bizarro. Entre os nomes mais populares estão o criador do meme Hide the Pain Harold (Harold, o Esconde-Dor em português), Katalin Karikó, a bioquímica vencedora do Prémio Nobel, e Ernő Rubik, o inventor do Cubo de Rubik.

Cristina Sambado - RTP / Adicionar como fonte informativa
Artur Widak - NurPhoto via AFP

Uma sondagem online anónima com a questão sobre quem deveria ser o próximo presidente da Hungria, revelou que o candidato mais popular era András Arató, um engenheiro eletrotécnico reformado que alcançou a fama mundial na internet como meme: "Harold, o Esconde-Dor". Katalin Karikó, a bioquímica vencedora do Prémio Nobel, e Ernő Rubik, o inventor do Cubo de Rubik, também foram escolhas populares.

Antes da sondagem anónima, Eszter Jámbor, uma criadora de conteúdos de 46 anos, focada na educação sexual, lançou a mesma questão aos seus seguidores no Instagram.

As sugestões variaram de estrelas de reality shows a culturistas e à modelo da Victoria's Secret, Barbara Palvin.

“Obviamente, a política é um assunto sério, mas também há espaço para um pouco de humor, para esta sensação de liberdade que parte da Hungria está a sentir após os últimos 16 anos”, afirmou Eszter Jámbor.

“Estou com febre política”, acrescentou Jámbor, sem se deixar abalar. “Voto desde os 18 anos. Mas finalmente sinto que tenho uma voz no que acontece no país.”

O parlamento húngaro elegerá um novo presidente que permanecerá em funções até que uma nova constituição planeada entre em vigor, ou por um período máximo de cinco anos.

"O presidente da república deve ser uma pessoa que zela pela unidade da nação e pela constitucionalidade", disse o primeiro-ministro húngaro, Peter Magyar no parlamento.

Desde a destituição do líder populista de direita Viktor Orbán numa eleição histórica no início deste ano, o país da Europa Central tem vivido um período de rápidas mudanças políticas.


O sucessor de Orbán, Péter Magyar, começou a implementar algumas das reformas que prometeu durante a campanha: retirou do ar as “transmissões de propaganda” nos meios de comunicação públicos e afastou os aliados de Orbán dos cargos de chefia do Ministério Público, da polícia e das Forças Armadas.

Talvez a maior disputa, no entanto, tenha sido a que Magyar travou com o presidente, Tamás Sulyok, que foi forçado a assinar uma emenda constitucional que pôs fim ao seu próprio mandato em julho.

Após a saída de Sulyok, nomeado pelo partido Fidesz de Orbán, o novo primeiro-ministro solicitou sugestões. “Vamos tomar uma decisão juntos”, afirmou num vídeo no Facebook.

Os parlamentares do partido no poder Tisza vão eleger o novo presidente, mas Magyar incentivou “figuras públicas, ONG e cidadãos” a apresentarem nomes.

Porém, menos de 24 horas depois de ter aberto a discussão, Peter Magyar anunciou que tinha nomeado a grande mestra de xadrez Judit Polgár para o cargo. A decisão provocou uma reação popular negativa, criticando a sua precipitação, e Polgár, tema do documentário da Netflix "A Rainha do Xadrez", recusou a nomeação.

Judit Polgár, tema do documentário "Rainha do Xadrez", lançado em fevereiro, é a única mulher a ter alcançado o top 10 mundial num desporto dominado por homens. É a única mulher a ter ultrapassado a marca dos 2.700 pontos no ranking, o patamar que muitos consideram a definição de um "SuperGrande Mestre". Judit Polgár escreveu na rede social Facebook que estava grata pelo convite. "No entanto, não me sinto suficientemente forte para assumir a responsabilidade histórica de unir uma nação dividida, pelo que não posso aceitar o pedido", realçou.

Peter Magyar pediu desculpa pela “falha de comunicação”, mas sondagens posteriores mostraram uma queda de três por cento na popularidade do seu partido.

“O processo ainda é imperfeito”, considera Imre Ónádi, um arquiteto de 55 anos que criou uma página e um grupo no Facebook para apoiar a candidatura do político conservador Péter Márki-Zay, que concorreu sem sucesso contra Orbán nas eleições gerais de 2022.

Ónádi saudou a recusa de Judit Polgár “não porque não seja a pessoa certa, mas porque a sua nomeação foi anunciada sem discussão”. Considerou o pedido de desculpas de Magyar um bom sinal. “Parece que têm em conta o que a população diz. Afinal, isto é democracia”, acrescentou.

Para já, encorajados pelo sucesso popular do partido Tisza nas eleições de abril, mas sem um canal oficial para recomendações, este debate ocorre em publicações nas redes sociais, sondagens online e cartas abertas.

No entanto, não é claro se estas recomendações populares estão a chegar ao Tisza e como é que o governo pretende lidar com elas.

Embora o governo tenha criado um espaço de consulta online para discutir uma atualização das regras de trânsito, não existe um canal oficial para recomendações presidenciais, apesar das palavras encorajadoras de Peter Magyar.

Qualquer húngaro com mais de 35 anos e direito de voto pode candidatar-se à presidência, mas Magyar afirmou que o seu candidato deve ser independente dos partidos políticos.

Reuniu-se com dois candidatos populares: o conceituado historiador Ignác Romsics e Botond Fülöp, advogado que revelou o escândalo dos indultos por abuso de menores que pôs fim à presidência de Katalin Novák em 2024.

Espera-se que os 141 deputados do círculo eleitoral de Tisza apresentem e empossem um candidato antes de 19 de agosto. Tecnicamente, o Fidesz, que tem 44 deputados, poderia indicar o seu próprio candidato, mas o partido declarou que não participará na eleição, pois acredita que a destituição de Sulyok foi ilegal. Nenhum outro partido possui deputados suficientes para nomear alguém para o cargo.

Já a Amnistia Internacional Hungria acredita que a destituição de Sulyok foi justificada, afirmou Áron Demeter, chefe de comunicação e campanhas do escritório da organização em Budapeste. “Mas poderíamos debater o método do Tisza”, acrescentou, argumentando que o governo poderia ter optado pelo impeachment para destituir o presidente em vez de aprovar uma emenda constitucional.

Com a sua alegada super-maioria no parlamento, o Tisza “não deveria fazer o mesmo que o Fidesz fez, com as mesmas ferramentas, só porque o seu objetivo é mais nobre”, acrescentou Demeter.

c/Agências
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